Os Correia – Uma Grande Família Pilónica ou a Eterna Saudade de um Amigo

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As recordações sobre o Pilão são da mais variada forma e incindem normalmente sobre uma determinada situação que vivemos ou presenciámos, sobre pessoas específicas, normalmente oficiais, professores ou colegas. Raramente evocamos funcionários indiferenciados, indivíduos com quem nos cruzámos dias e dias, nomes talvez menos conhecidos, mas cuja “existência” e funções foram importantes para que o Instituto funcionasse e continue a funcionar, proporcionando aos seus alunos as melhores condições.

Essa a razão de invocar e relembrar uma família cujo nome está indelevelmente ligado à história do Pilão, que foram os Correia.

Não me cruzei com “Correias” que tivessem sido alunos, mas cruzei-me com “Correias” funcionários e daí a razão primeira do artigo: evocar funcionários. E, aproveita-se o ensejo trazendo à memória os demais “Correias”, desta família, que no seu todo, não foram poucos na história do Pilão.

Houve e há pais que lá puseram filhos, porventura os avós também já lá tinham estado, mas neste caso específico dos Correia, trabalhando no Instituto, temos uma mescla de funcionários civis, militares, alunos e professores.

E um grande Amigo.

Eu próprio estava enganado pensando serem só sete, mas falando com o Jorge para esclarecer umas dúvidas, afinal iria omitir dois deles, pelo facto de não ter tido oportunidade de os conhecer.

Para facilitar a coisa e não arranjar aqui “salada” tipo “Buendia dos Cem Anos de Solidão”, e por me faltar o jeito, claro, dando e baralhando Correia para um lado e para o outro, confundindo até os David que dos nove foram três, desta família grande porventura mas, de certeza uma grande família pilónica, diria para já e, para resumir, que estamos na presença de duas mulheres e sete homens e para vos ajudar ainda mais, “partamos” a família em três ramos, os três irmãos, e depois em cada um desses ramos, passemos à segunda e a uma terceira gerações.

No primeiro ramo limito-me a evocar aqueles Dois, que iria involuntariamente omitir: o Manuel, irmão do António e David, foi funcionário da óptica e a sua esposa Albertina foi funcionária do refeitório. Não sei quanto tempo estiveram no Pilão, mas foram com certeza elementos importantes na organização do Instituto, mas, não tenho memória deles, porque não tive o prazer de os conhecer.

O primeiro Correia que conheci ainda garoto e, falando já do segundo pilar da família, foi o António da enfermaria, mas que ninguém o conhecia assim: ele era o sargento do Fã. O meu Pai, por ter sido alfaiate dos Pupilos durante muito tempo, conhecia lá muita gente e era muito amigo dele. Por via desses conhecimentos e da proximidade da Escola e do local onde vivíamos, perto da Belmar, (quem não conhece a Belmar está a lerpar fruta) estão aqui encontradas as razões que levaram o meu Pai a inscrever-me nas candidaturas ao 1º ano.

O António, indefectível benfiquista, era o manda-chuva do Fã, era a sua alma, por sinal até morava ali logo ao lado, óptimo para qualquer urgência, tendo como vizinho, no andar de baixo o Di. O Fã era um local aprazível para quem queria ter uns dias de sorna. Baixar ao Fã era passar uns dias porreiros. Mas não era fácil baixar ao Fã porque o António, homem experiente não se deixava levar pelas matreirices do pessoal simulando uma simples enfermidade. Mas, a baixa ao Fã por uma qualquer doença, trazia-nos uns baldanços às aulas, às apresentações ao Comandante de Companhia e tínhamos o “nosso Sargento “sempre a apaparicar-nos: “dói- -te a cabeça? Aguenta aí que vou ali buscar uma Acetalgina” [uma aspirina feita no Laboratório Militar – lembram-se?].

Em dias de vacinação, mesmo na presença do Oficial- -de-Dia, era o António que liderava os acontecimentos: toca a fazer fila indiana pela escada abaixo, e na presença dele, vamos lá a tirar a camisa, nova agulha acabada de ferver, na seringa, porque descartáveis é descoberta posterior e, lá vai disto.

Recordar-se-á, certamente, pelo trabalho que deve ter tido por via de duas epidemias que atingiram a Escola,a primeira julgo de papeira e o segundo da qual eu também fui atingido, que foi a sarna. Em boa a hora em ambos os casos a Escola fechou de quarentena até as coisas acalmarem.

Os filhos do António, conheci-os bem mais tarde: o mais novo, Jorge, vai para dez-quinze anos a quem devo ter dado umas biqueiradas e levado também umas quantas, numas partidas de futebol na segunda secção. Acabei de saber que foi comandante de batalhão em 89/90 e que actualmente é um ilustre economista.

O filho mais velho do António, o David, homónimo de seu tio e do seu primo – lá estou eu a meter aqui os Buendia para ver se vos baralho, mas acho que não consigo – era um compincha da minha idade. Trago-o aqui porque foi um grande Amigo meu. Com ele partilhei inúmeras coboiadas; se queríamos ter miúdas connosco era ter o David ao pé, porque o rapaz tinha uma capacidade de atracção irresistível e quem “andava” com ele, tinha sempre a oportunidade de poder “sacar” as “sobras” do rapaz.

Tínhamos um grupo de amigos para as farras e passámos juntos dias e dias de sã e inesquecível camaradagem. Infelizmente, vim a saber até pela boca do próprio Pai que encontrei num dia subindo a Rua dos Soeiros que o meu grande Amigo, lastimavelmente já tinha falecido, prematuramente, em circunstâncias muito tristes e dolorosas.

O terceiro pilar, o David, tio de um e avô de outro, era o homem dos livros e dos assentos. Dominava a secretaria escolar na segunda secção. Dono de uma eloquência de se lhe tirar o chapéu. Nós, alunos quando o Homem começava a falar calávamos e escutávamos atenciosamente as suas palavras. Não havia nota de exame escrito ou oral que lhe passasse ao lado. Respeitadíssimo pelos professores e oficiais: se tem alguma dúvida, faz o favor passe, pela secretaria e fale com o Sr. David. E era assim que funcionava e não falhava.

A esposa, Vitória, era chefe de uma das rouparias e não me preciso de alongar muito para ter a certeza que ela e a sua equipa tratavam com muito amor e dedicação o nosso enxoval, num puzzle interminável de emparelhanço de meias numeradas, a que se juntavam as cuecas, lençóis, fronhas, calças e camisas com o mesmo número, tudo num novo saco de roupa lavada e fresca.

os-correiaÀ sua guarda também a roupa de saída lavada e passada a ferro e as barretinas para dia de gala.

Filho de ambos, o Carlos, também Pilão, alguns anos mais velho do que eu e, mais tarde também professor da Escola e que, de vez em quando aparece aqui na Costa.

Finalmente, o terceiro homónimo David, o neto, também Comandante de Batalhão no ano de 97/98 é Engenheiro Mecânico e não o conheço.

Pela diversidade de funções que desempenharam como funcionários e militares e pelos 2 Comandantes de Batalhão que deram aos Pupilos, esta família Correia escreveu e porventura continuará a escrever através dos seus filhos e netos uma página inolvidável da nossa Escola.

Um bem-haja a todos, pelo que deram ao Instituto e ao meu Amigo David, em especial, uma lágrima de saudade.

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