O Pilão e o Serpa Pinto

david

Ao findar dos anos 40, em boa fase de existência, o nosso Instituto assinou um protocolo com a Companhia Colonial de Navegação (C.C.N.) com vista à realização de estágios curriculares de pré-finalistas do Curso de Máquinas e Eletrotecnia, cumpridos a bordo do já histórico “Serpa Pinto”, ainda a vapor, com viagens ao Norte da Europa e aos Brasil.

Fui um desses estagiários selecionados, em julho de 1951, juntamente com o J.J. Vidigal (19430351) e o Mário Polido Martelo (19440303), dando sequência ao que nos fora ministrado na cadeira de “Geradores e Máquinas a Vapor”, lecionada pelo “nosso” Major Henriques Vidigal.

De um tal protocolo beneficiaram também mais alguns “Pilões” que recordo bem, como o Armando Oliveira Soares (19430203), o Vicente Esteves (19420117) e o Eduardo Feio (19440101). E houve mais, provavelmente….

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Relembro que andei embarcado perto de 40 dias, viajando desde a Rocha de Conde de Óbidos até Matosinhos e tocando depois em mais 6 portos, até Santos – São Paulo, com retorno a Lisboa.

Foi uma experiência enriquecedora sob múltiplos aspetos, decisiva para eu não ter optado pela Escola Naval, no ano Seguinte, como minha saudosa Avó, tutora e conselheira, tanto desejava.

Mas o curioso desta evocação é que durante todo o tempo que habitei o “Serpa Pinto” nunca ouvi falar do que se tinha passado a meio da II Guerra Mundial quando o paquete da C.C.N. foi fretado para salvar judeus perseguidos, vindos do Sul de França ou de Barcelona rumo aos Estados Unidos e à América Latina.

Tinha sido tão somente há 5 anos, mas ninguém relembrou o que de complicado ocorreu, muito em especial, quando do inesperado ataque do submarino alemão ao “Serpa Pinto”, na manhã de 26 de Maio de 1944, com o registo de algumas horas de terror e de 3 mortes por acidentes, o Médico de Bordo com uma criança nos braços e o cozinheiro mor. E tal aconteceu 12 dias antes do triunfal dia D, na Normandia.

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A C.C.N., sediada em Lisboa, tinha adquirido o “Serpa Pinto”, o navio de médio porte, a vapor, que viria a assumir um papel histórico no percurso para a liberdade para muitos milhares de refugiados com maioria de judeus orientais. Estava-se em Março de 1940 e quando fui estagiário no O Pil ão e o Serpa Pinto “Serpa Pinto” 133 meses depois, não vi nem escutei qualquer espécie de referência ao episódio do ataque-surpresa do submarino alemão.

E porquê? – posso e devo perguntar agora. O fluxo informativo sobre episódios da guerra (1939/45), das as duvidosas relações salazaristas com o Reich hitleriano de má memória, era frágil, bastante distante do conhecimento geral de um jovem de 18 anos.

Hoje, penso, que num qualquer recanto do navio deveria figurar referência do sucedido em 1940, mas não tenho disso a mínima ideia.

Em 1952 o já caduco “Serpa Pinto” foi o baluarte que levou a Helsínquia a missão olímpica portuguesa para a edição desse ano de bem curioso historial.

Não durou muito mais tempo com o advento das turbinas e a renovação da frota da C.N.N. e creio que não teve continuidade o protocolo com o IPE dado o lamentável lapso de interregno dos Cursos Médios de Engenharia, desde 1952.

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o-pilao-e-a-serpaCom contributo histórico, eclipsado durante a Guerra, adianta-se que o “Serpa Pinto” tinha capacidade para 600 passageiros e 160/180 tripulantes e que foi estreado em 1914 pelo Royal Mail britânico, na I Guerra Mundial. Mais tarde, nos anos 20, foi adquirido por uma empresa jugoslava com o nome de “Princesa Olga” fazendo escala regular entre Dubrovnik e Haia, até ser “Serpa Pinto”, da C.N.N., tronando- se um paquete histórico que muito me apraz evocar.

Fiz parte da sua tripulação, com o nº 179 e a categoria de estagiário de Máquinas, de Julho a Gosto de 1951. E comprovo através do “cartão de identidade”, que publico em anexo.

 

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