O Mundo Mudou e os Escritores Também Mudaram

Jacinto-Rego-de-Almeida

Em 1936, Samuel Beckett, 30 anos, escreveu o seu primeiro livro, “Murphy”. Fê-lo em Londres, com toda a sorte de aflições psicológicas, crises de pânico e taquicardia, longe da sua terra natal (a Irlanda), sem emprego, em conflito com a mãe a tentar força-lo a abandonar a escrita e procurar estabilidade e um emprego fixo. O escritor dividia-se em sessões de psicanálise, leituras de Kant e Schopenhauer… a Guerra Civil de Espanha iniciava-se e a Europa preparava-se para um longo período de guerra, destruição e genocídio.

Na manhã de 20 de Maio de 1937 Eric Arthur Blair, conhecido como George Orwell, autor de “A revolução dos bichos” e “1984” entre outras obras de relevo, levou um tiro que lhe atravessou o pescoço na sua luta ao lado dos republicanos, relatada no seu livro “Lutando na Espanha”.

Em 1938, Beckett regressou definitivamente a Paris, foi esfaqueado por um morador de rua e internado no Hôpital Broussais onde fez a revisão das primeiras provas de “Murphy”.

A II Grande Guerra estava prestes a começar.

Nos escaparates de uma livraria no Chiado vi, há dias, os livros em destaque, em sua maioria escritos por figuras públicas da política nacional, comentadores e locutores da televisão portuguesa, treinadores de futebol, autoajuda, culinária e escondido no meio de uma estante do interior um exemplar já envelhecido de “1984”. E um livro de Beckett, creio que “À espera de Godot”. (Ele não ouviu os conselhos da mãe, tornou-se um dos escritores mais influentes do século passado e recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 1969 –, penso.)

George Orwell foi empregado de cozinha em restaurantes e hotéis, trabalhou como mineiro, e morou em bairros de lata no norte de Inglaterra. Em Espanha, esteve engajado no Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), hostilizado pela U.R.S.S.. E é sobre a sua correspondência, sobretudo com editores, críticos e a mulher nos anos de chumbo da Europa, que nos mostra as sutilezas da edição de livros na época em relação à mesma atividade nos nossos dias. Como o mundo mudou e também o mercado editorial…

Em carta, de Julho de 1937, dirigida ao editor-chefe da International Literature (revista publicada em Moscovo), Serguei Dinamov (preso em 1938 e morto no ano seguinte no gulag), Orwell trata-o por “camarada”, envia-lhe um exemplar de “O caminho para Wigan Pier”, diz não estar completamente recuperado do ferimento sofrido em Espanha, refere-se à milícia política a que serve e “pode ser que a sua revista não queira ter contribuições de um membro do POUM, e eu não quero me apresentar a você com pretextos falsos.” Em carta, de Agosto de 1937, ao seu editor, Victor Gollancz, salienta o texto de uma nota depreciativa na revista Daily Worker sobre “O caminho para Wigan Pier” a respeito de uma frase em que o escritor afirmaria que as classes trabalhadoras “cheiram mal”. Orwell corrige escrevendo: “o que eu disse é que as pessoas de classe média são levadas a acreditar que as classes operárias cheiram mal, o que é simplesmente uma questão de fato observável”.

Em carta, de Abril de 1938, a Stephen Spender, romancista, poeta e crítico, diz ver nele “uma espécie de pessoa bem-sucedida da moda, e também um comunista ou simpatizante comunista” e não propriamente “como um bolchevique de salão como (o poeta) W.H.Auden”. Depois desta carta tornaram-se amigos.

No Chiado, após sair da livraria, encontrei o senhor F. que me falou sobre a Olimpíada no Rio de Janeiro, dizendo que grande parte das medalhas foram ganhas por pessoas simples de origem modesta ou pobre e que “antigamente a maioria dos atletas que iam aos jogos Olímpicos eram gaitudos que tinham tempo e dinheiro para praticarem desporto, os portugueses da equitação, da vela, da esgrima, lembras-te? Agora é mais democrático”, e acendeu um cigarro. Eu falei-lhe sobre escritores e livros. Disse que não há mais autores como Beckett, com o seu pudor da linguagem, uma obra que nasceu de um susto, um movimento de recusa cavado pela II Guerra Mundial, também não há escritores com aura como Orwell, Hemingway…

“Hoje, toda a gente escreve livros” – interrompeu-me o senhor F..

“Isso é bom, toda a gente escrever livros, é a democracia da escrita” – disse eu para contrariá-lo.

“A democracia da escrita?” – sussurrou o senhor F. entre uma tragada e outra do cigarro. Seja como for, o mundo mudou, os atletas… e os escritores também mudaram, nada é o que foi em meados do século passado, concluímos.

E despedimo-nos com um “até breve”.

 

Jacinto Rego de Almeida | nº19520049

X