O homem que escrevia cartas a si próprio – VIII

A carta que havia recebido daquela simpática holandesa, ficou-lhe gravada na memória. Uma memória viva, bem viva e não daquela memória resguardada em qualquer canto remoto do seu cérebro. Todos os dias lhe vinha à cabeça o texto da carta e muito especialmente duma simples frase em que Christine lhe formulava um intenso e claro convite para a visitar na Holanda e ficar o tempo que quisesse na sua casa… Aquilo, desde logo o surpreendeu e depois o entusiasmou. Um entusiasmo que ele quis, a princípio, desvalorizar, mas que foi ganhando terreno e fixação, fazendo-o imaginar um simples porque não?…
Nunca, em matéria de viagens, tinha ido além de Espanha e de uma escapadinha de uma semana à Madeira. Sonhava muito com a Europa, mas o seu crescimento deu-se neste cantinho à beira mar plantado, cerceado pelos Pirenéus e depois os Alpes Franceses, coisa que para ele funcionava como um obstáculo longe de ser ultrapassado. Viajava muito na literatura e, mais recentemente, pelos documentários televisivos que lhe davam a conhecer as belezas e a história do velho continente. Deliciava-se a aperceber-se com mais profundidade dos usos e costumes desses países, que ainda lhe pareciam longínquos e das formas de vida dos seus povos, das peculiaridades de cada um deles, dos ainda difusos, e às vezes ainda pouco compreensíveis conceitos de modernidade e progresso que por lá se viviam. Se por um lado o desafiavam, por outro, toda essa distância do tempo e do espaço, o mantinha numa ansiedade expectante, mas também cautelosa e, porque não dizê-lo, conservadora.
Mas aquela frase, aquele convite, aquela disponibilidade tão óbvia e genuína, toda essa plêiade de sinais de uma sinceridade estimulante, fervilhavam no seu mais íntimo pensamento. E porque não?…
Sentia um ímpeto enorme em dar uma pronta resposta ao desafio recebido, mas uma certa falta de agilidade nos seus mecanismos de impulsividade e reação, continuavam ainda a tolher-lhe a sua capacidade de resposta em sintonia com aquilo que sentia como desejo, mas ainda receava poder considerar como uma desaconselhável ousadia.
Nos dias seguintes fechou-se mais no escritório procurando informação sobre a Holanda, aquele a quem também designavam como Países Baixos. Procurou na enciclopédia adquirida há já bastante tempo e o que encontrou, embora de fonte fidedigna, estava desfasado do tempo actual. A informação era muito datada e ele queria saber mais sobre o país, os costumes e o seu povo, hoje em dia. Foi, por isso, espreitando os canais de informação variada na televisão, na esperança de poder encontrar algum programa que abordasse a Holanda de hoje em dia. Chegou mesmo a ir à Livravia mais considerada na vila para tentar encontrar informação mais actualizada. Aí sim, conseguiu identificar algumas pequenas publicações, especialmente dedicadas às viagens, mas que lhe transmitiam informação mais prática e de acordo com a maneira de viver dos tempos correntes. Embrenhou-se nesses pequenos manuais de viagem e deles foi conseguindo retirar uma visão mais correcta de como era esse país das vacas e das flores, dos moinhos e das chinelas em madeira, dos canais e de uma certa libertinagem de costumes…
A ideia começou a crescer na sua mente. Porque não um rasgo de coragem e ousadia e aceitar o convite de Christine?… Porque não despir esta sua roupagem de idoso, ou sénior, como agora se dizia, e libertar-se de amarras e rotinas, de dias e noites calculados de véspera, de uma certa clausura, não da sua cabeça e do seu pensamento, que esse ele deixava discorrer e respirar novas abordagens para as dúvidas que tentava sempre ultrapassar, mas sim rasgar o retrato que os outros e ele próprio fazia de si. Um senhor respeitável, culto, cortês e independente, mas que no fundo, dependia desta sua imagem muito consensual. Sentia-se refém de si próprio ou do seu reflexo no espelho da pequena sociedade onde continuava inserido, onde toda a gente o conhecia e esperava dele aquilo mesmo. Um boneco com compostura e educação que inspirava apreço e respeito, mas que o tolhia naquele enredo que ele próprio fora criando ao longo dos anos, dos tiques, das pequenas vénias com que cumprimentava toda a gente, de um sorriso permanente, suave e contido, do andar repousado em passos curtos e calculados, de uma compostura perene como os ramos das árvores que lhe amparavam os passeios matinais pelas veredas e pelos carreiros desta terra que há tanto o acolhera… Deu com ele a olhar-se de fora de si próprio para aquele boneco e sentiu-se desconfortável. Não gostou!
Na manhã seguinte levantou-se mais cedo ainda, foi olhar o céu e as nuvens, sentir a fragrância da madrugada, ainda a pairar sobre os campos, as ervas molhadas, as folhas das árvores cobertas de um gotejar nocturno e de seguida rumou ao escritório. Num ápice, resolutamente, ufano e cheio de energia, buscou por uma folha de carta e começou a escrever…
– “Dear Christine…” Quando finalmente escreveu o seu nome e assinou a missiva, estava orgulhoso de si próprio. Apressou-se a tratar do envelope, dobrou milimetricamente a folha em que assinara a sua própria abolição de uma clausura a que se tinha, até aqui, submetido, envelopou aquele pedaço de si próprio, da sua vontade cumprida, da sua libertação de anos de “tudo como deve ser” e saiu porta fora dirigindo-se aos Correios, onde selou e encaminhou a carta para a Holanda, através daquela ranhura que engolia as notícias para as transportar para outras paragens… Esta ia direitinha à Holanda e mais propriamente à Christine e levava o seu mais sonoro e mudo grito de uma libertação de si próprio!
Ainda parou no café, sentou-se numa mesa que não era aquela que durante anos sempre ocupara e sentiu-se mais leve, numa outra dimensão de si próprio e olhou para tudo. Estava tudo diferente. O café era o mesmo, mas os seus olhos viam tudo com outras cores. Saboreou o café e ali ficou a desfrutar de si mesmo, um homem novo!…

(continua)

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