O Homem que Escrevia Cartas a Si Próprio – VI

Ernani-Bals

Acordou cedo e bem-disposto no dia seguinte. Preparou- se e depois de tomar um pequeno almoço ligeiro, com um bom café de cafeteira, decidiu ir caminhar pela frescura da manhã. A noite havia sido motivante e generosa, com a companhia das duas novas amigas, que se deliciaram com o repasto, mas não só. Era óbvio que tinham ficado deliciadas com a qualidade da refeição, mas também com a inesgotável simpatia do anfitrião. O vinho, um néctar de rara casta e fragância frutada e envolvente, ajudou bastante à fluência da conversa, já depois apimentada por um licor de receita ancestral que ele guardava entre os seus tesouros afectos aos prazeres da gula. Falou-se de tudo um pouco. Dos usos e costumes de cada um dos países, das vivências de cada um, e também dos sonhos ainda em carteira que os três não se inibiam ainda de manter e cultivar. Uma noite de invulgar bem-estar e um raio de sol, ou na situação presente, de lua que os acompanhara no terraço da casa, na temperatura amena e nos aromas campestres ali tão presentes.

Já tarde, chamaram um táxi e as convidadas retiraram-se, não sem promessas de manterem o contacto no futuro, uma vez que elas rumariam a sul para conhecerem ainda a capital e seus arredores. A história, o Tejo, que sabiam quase um mar por alturas de Lisboa e todas as maravilhas de Sintra, Mafra e a costa sul. Trocaram endereços e mesmo desejos de se reverem, um qualquer dia, talvez na Holanda, quem saberia…

Agora era tempo de recordar, com prazer, a serenidade e ao mesmo tempo a excitação daquela noite única no seu marasmo habitual. E com isso, uma renovada quase certeza de que a vida era algo que nós podíamos, em muitos aspectos, controlar e projectar em novos horizontes e propósitos. Assim, foi com novo fôlego que se se meteu por caminhos e atalhos e olhou cada pequeno detalhe da natureza, como novas descobertas e ainda muito mais por descobrir. A sua cabeça fervilhava de emoção e desafios, se bem que com uma serenidade que o dispunha bem e optimista.

Deu com ele a pensar em coisas perdidas no tempo e a concluir que, se calhar, tudo poderia ter sido diferente se tivesse, nessas alturas, tomado a decisão menos convencional e mais arriscada. A vida é feita de riscos e de ousadia e muitas vezes repousamo-nos demasiado naquilo que é mais consensual com os outros, esquecendo-nos de nós próprios. Da nossa felicidade. Do nosso direito à descoberta. Da nossa urgência de qualquer coisa, que nem sabemos o quê, mas que apela no nosso mais profundo inconsciente, a ser trazida á consciência do momento presente. Um apelo à transgressão daquilo que nós julgamos ser o certo, o mais correcto, o seguro. E assim nos perdemos na vulgaridade e na sensaboria de uma vida sem novos rumos e outras soluções. O tal marasmo sobre o qual insistimos em construir a nossa insignificante normalidade.

Sentado junto ao açude, local onde gostava de conversar em silêncio com o marulhar das águas do riacho, recuou no tempo e reviveu momentos de muitos anos atrás. As coisas que fizera e as que nunca ousou fazer, percorreram-lhe aquela fita do tempo a que vulgarmente chamamos memória. Tantas coisas banais e muitas mais nunca experimentadas. Sempre o travão de uma consciência alimentada pelo convencionalismo e as falsas virtudes que lhe incutiram no seu crescimento. O bem e o mal, sempre em edições revistas e aumentadas, o parece-bem em constante confronto com o parece-mal. Os tabus, esses então, ameaçadores e castigadores, a encostá-lo à parede do socialmente correcto. Não tinha ainda surgido esse novo conceito do politicamente correcto, uma sofisticação da mesma ideia de então, mas sem o teor politizado que nesses tempos era impensável sequer imaginar. Toda e qualquer ideia nova, alternativa ou pendor para explorar o desconhecido, apagava-se de imediato da sua mente e uma forte pressão reprovadora, manietava-lhe a vontade e mesmo o desejo de saber o que haveria para além daquela linha inultrapassável da normalidade cinzenta e triste.

Só muito mais tarde, já homem feito e com muita leitura na cabeça, filmes e outras formas de arte e cultura que as mudanças na sociedade foram libertando, ele se apercebeu que havia outro lado da vida. Um outro lado, que ainda que não abertamente disponível, era já possível visitar e experienciar, mesmo que a medo e ainda reticente. As relações entre as pessoas ainda o confundiam, nomeadamente quando tinha de lidar com a condição feminina, agora muito mais liberta e em vésperas de uma total libertação de consciências e conduta. Nunca se envolveu, no entanto, numa verdadeira ou consequente relação. A figura do casamento, da família tradicional e devidamente arrumada nas prateleiras convencionais e comportamentais da sociedade, nunca o atraiu. Passou a ser aquilo a que se pode chamar, um solteirão, umas vezes convicto e outras encalhado, como era uso dizer-se…

Esta viagem no tempo e os acontecimentos recentes fizeram- no sentir necessidade de uma análise mais profunda do seu percurso de vida. Um olhar para trás e um consequente reposicionamento na vida, tal qual ela era hoje em dia. Mas para isso era urgente compreender o passado e apagar fantasmas e outras poeiras do caminho percorrido…. Levantou-se, decidido e regressou a casa, de cabeça arejada e uma forte vontade de pensar… pensar e agir…

(continua)

Ernani Balsa | nº19600300

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