Joan Miró – materialidade e metamorfose e o Porto com sentido

Fiz questão de ir visitar a exposição das obras de Miró em Serralves.

Sobretudo porque era um artista que me deixava sérias dúvidas acerca do seu trabalho, até cheguei a comentar que não gostava, era tudo uma algaraviada.

Achava eu que bastava ter 3 ou 4 latas de cor de tinta amarela, vermelha, preta e pouco mais e estava feito. Essa percepção do não gostar faz-me muita confusão, só se pode não gostar depois de conhecer, sentir, provar, experimentar, sentir. Não gostar porque não gosto, a mim não me chega.

Fui visitar, acabámos por fazer uma visita guiada no domingo, para meu grande espanto ao domingo as visitas guiadas são em Espanhol, isso efectivamente não gostei, mas queria um guia.

Lá fomos com o nosso guia/orientador/professor de arte, o grupo que era inicialmente de 16 pessoas e deveriam ser no máximo 4 Espanhóis, no fim da exposição iam anexados ao grupo ¾ da população que visitava a exposição, uma visita guiada tem inúmeras vantagens e enriquecimento para quem a visita. Para uma leiga como eu é a melhor opção para ter um olhar sobre o artista mais esclarecido. Ficamos alertas para pormenores, símbolos, detalhes, mensagens e não só na forma, nas perspectivas, nas cores da obra, no elementar. Vemos a obra sob o ponto de vista de quem pensou e estudou a melhor forma de ser exposta, a sua sequência cronológica ou não, a evolução do artista, etc.

Saí de Serralves e não posso dizer que não gosto de Miró, agora que já desvendo um pouco da sua simbologia, conheço um pouco da sua história já o observo com outros olhos. Das 78 pinturas expostas francamente só queria um quadro “Personnage et étoiles dans la nuit” de 1965. A pintura ideal para ter num quarto de dormir, o fundo negro pintalgado de estrelas, setas a atravessar a obra como se fossem constelações e pontinhos luminosos, um boneco que me faz lembrar um ursinho de peluche com pijama, esta obra tem um toque oriental, inocente remete para a infância e é lindíssima.

Como estávamos numa de arte, fomos directas para o Mercado do Bom Sucesso, a Fundação Manuel António da Mota tem uma exposição de olhares sobre a cidade do Porto, Porto com sentido, fantástica. São 41 obras de artistas que expressam a sua visão da cidade.

Apesar de ser grátis estava vazia, Serralves estava um horror de gente. Uma exposição muitíssimo bem concebida com pintores como Aurélia de Sousa, Graça Morais, Nadir Afonso, Abel Salazar, Fernando Lanhas, Amândio Silva e tantos outros. Quadros lindíssimos, olhares com luz ou na penumbra de um Porto mágico.

No fim deste dia que foi memorável, pois foi passado com pessoas que tenho um carinho muito grande, visitei ou revistei lugares lindos, ri e aprendi. No comboio para Lisboa o meu balanço é que uma vida não nos chega para nos descobrimos, estamos em constante metamorfose, aprendizagem, conhecimento.

A nossa materialidade não deveria existir, porque nada se esgota neste planeta e assusta-me o tanto que quero ver, conhecer pela primeira vez ou conhecer melhor, ou o que desconheço de todo e a ampulheta está lá com a areia a cair constantemente.

Quem me dera nascer novamente e rescrever a minha vida, alguns aspectos não mexia mas havia tanto para fazer diferente, quanto mais conheço o Mundo mais fascinada estou com ele, e ampulheta está lá a garantir que a matéria é finita.

Temos que olhar tudo, apreciar, desvendar, interrogar sobretudo com todos os sentidos.

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