D. Dinis e a Ordem dos Templários: Um Legado para os Descobrimentos

david

“Non nobis Domine, non nobis,
sed nomini tuo ad gloriam”
(“Não a nós Senhor, não a nós,
mas para Glória de teu nome”)
Antigo Testamento, Livro dos Salmos 115:1

Sepultado no Mosteiro de São Dinis, em Odivelas, repousa D. Dinis, Rei de Portugal, um dos vultos mais relevantes na nossa História. Foi o nosso primeiro monarca a nascer na nova capital, em Lisboa, no ano de 1261. O seu pai, o Rei D. Afonso III, quebrou a alternância onomástica até aí seguida e, em vez de lhe dar o nome de Sancho, atribuiu-lhe o nome do santo alusivo ao seu dia de nascimento, 9 de Outubro. E em boa hora o fez. Na verdade, seria de muito mau gosto escolher o nome do irmão (Sancho) que ele, Rei D. Afonso III, apoiado pela força das armas e até pela magistratura de influência do Papa, acabara de depor. E assim ficámos com um Rei D. Dinis, em vez de um Rei D. Sancho III. Que, já agora, nunca viríamos a ter.

Tendo sido educado por grandes mestres e intelectuais da sua época, o Rei D. Dinis sabia ler e escrever. E desde muito novo havia sido convidado a interessar-se pelas vicissitudes da governação, tendo até sido enviado como embaixador à corte castelhana de seu avô, o Rei D. Afonso X, onde com apenas 6 anos, acabou por garantir o reconhecimento do Algarve como posse do Rei de Portugal, ainda que houvesse uma não despicienda distinção entre Portugal e o Algarve. Aliás, não foi por acaso que o título real que depois se passou a usar pelos soberanos portugueses, foi: “Rei de Portugal e do Algarve”.

Apelidado de “Rei Lavrador”, “Rei Trovador” ou “Rei Poeta”, alocou na área da cultura um dos seus mais notáveis interesses, tendo-a protegido e desenvolvido. E sabemos que tinha 1.65m, cabelo e barba ruivos, além de uma excelente dentição. Sabemos isto porque quando o seu túmulo foi aberto para um processo de restauro, no ano de 1938, foi possível constatar-se estes factos, o que para a época em que ele viveu nos leva a concluir que este era um monarca que gozava, em princípio, de uma excelente saúde. Caso ainda mais interessante se pensarmos nas caraterísticas rudimentares da medicina e da latitude acometida aos hábitos de higiene que eram comuns no seu tempo.

Casado com uma das mulheres mais conhecidas e mais admiradas da História de Portugal, a Rainha Santa Isabel, contudo é sabido que o nosso Rei D. Dinis teve várias amantes. Por sinal, Odivelas era uma terra propícia para essas aventuras noturnas do monarca (“Ide vê-las, que nós aqui estamos para vos alumiar”, ter-lhe-á dito a Rainha Santa Isabel, que porventura poderá ter também originado os nomes de Odivelas e de Lumiar). Pacificadora, devota e piedosa, a Rainha Santa Isabel não só foi paciente e benevolente com o seu marido (e com os bastardos dele), como até chegou a impedir a realização de batalhas, como foi no caso de Alvalade, em 1223, que opunha o Rei D. Dinis ao seu filho, D. Afonso (futuro rei D. Afonso IV). E sim, também é atribuído à Rainha Santa Isabel o “Milagre das Rosas”. Exatamente o mesmo milagre que é atribuído a uma outra Isabel, sua tia-avó, também rainha (da Hungria) e também canonizada.

Com poucas alterações ao que hoje conhecemos, deve-se ao Rei D. Dinis a fixação das nossas fronteiras, através do Tratado de Alcanizes. Decretou também que todos os documentos fossem escritos em português (em vez do latim) e fundou o ensino universitário, instalado em Lisboa, que depois acometeu para Coimbra. É impressionante a lista de obras efetuadas no seu longo reinado de 46 anos, com o aumento da área do Pinhal de Leiria, a fundação da marinha de guerra portuguesa enquanto entidade estruturada, a exploração de minas, a fortificação de fronteiras, e a criação de muitos concelhos e de muitas feiras francas, a par da prossecução de políticas de centralização régia (utilizando, por exemplo, inquirições e confirmações).

Deve-se também a ele a transformação da Ordem do Templo na Ordem de Cristo, num tempo em que a conivência papal de Clemente V e a instigação do Rei Filipe IV de França, haviam resultado mortíferas. Literalmente. Ambos estavam alinhados num processo sinuoso e pouco isento, mas envolto em muitos interesses, com o propósito de extinguir os Templários, abater o seu imenso poderio e tirar partido das suas riquezas alicerçadas em infraestruturas económicas e num sistema financeiro de grande eficiência.

Apostado em utilizar uma estratégia de descrédito, o Rei Filipe IV de França acusava agora os Templários de heresia, imoralidade, sodomia e de diversos outros crimes. Rei Filipe IV, “O Belo”, o mesmo que não tinha sido admitido na Ordem do Templo e que agora, com graves problemas de tesouraria, usava a sua influência sobre o Papa Clemente V, claramente sob a sua dependência, para acabar com a Ordem do Templo e confiscar todos os seus bens.

Numa sexta-feira, no dia 13 de outubro de 1307 (e daí a associação à ideia de azar, que perdura até hoje, quando pensamos numa “sexta-feira 13”) o Rei Filipe IV obrigou ao comparecimento de todos os Templários de França, que depois foram encarcerados em masmorras, submetidos às mais infames torturas para se declararem “voluntariamente” culpados de todas as mentiras e falsidades de que os acusavam. O Rei Filipe IV, que seria certamente belo, mas que era com toda a certeza execrável, bem se aproveitou de toda aquela vergonha. E depois de todo esse processo iníquo, fez queimar vivos os Templários de França. E a Igreja Católica, neste e como em outros casos, foi Santa. Tal como o Santo Padre, sempre santificado, pelo menos na designação, muito antes de subir aos céus.

Recordemos que, considerados uma tropa de elite, os elementos combatentes dos Templários já haviam protegido peregrinos a Jerusalém (até perto do ano de 1291, quando os muçulmanos conquistaram finalmente São João de Acre, que era a última cidade cristã na Terra Santa) e haviam sido responsáveis por grandes contributos em várias (re)conquistas cristãs, muitas vezes utilizando técnicas de combate e de operacionalização de meios bélicos altamente avançados para a sua época. Desde o tempo de D. Teresa e do Condado Portucalense que os Templários estavam em Portugal. E tinham mostrado, entre muitos outros méritos, o seu extraordinário valor em difíceis combates contra os mouros, assegurando a posse e a defesa de terras e castelos.

Aliás, é sabido que o primeiro selo real do Rei D. Afonso Henriques parecia ocultar uma mensagem destinada aos Cavaleiros Templários: a disposição das letras que formavam a palavra “Portugal” era decomposta em “Por Tuo Gral”, o que teria ligação com as mensagens codificadas típicas dos Templários e até com a transformação do nome do Reino de Portugal numa autêntica divisa: “Por Tuo Gral” ou seja, “Por teu Graal”. Uma alusão clara ao Santo Graal, ou seja, ao cálice usado por Jesus Cristo na Última Ceia, que se acreditava estar na posse dos Templários.

O processo de extinção da Ordem do Templo em Portugal teve início com a recepção da bula “Regnans in coelis”, datada de agosto de 1308, e posteriormente, com a bula “Callidi serpentis vigil”, datada de dezembro de 1310. O Rei D. Dinis perante aquilo que era um processo vil movido contra “os pobres cavaleiros”, arquitetou uma solução magistral, por sinal bem portuguesa: deixou tudo na mesma, mas usou de uma grande operação estética e empregou um grande enredo argumentativo, em ordem a manter-se firme em não ceder os bens dos Templários a Roma e, ao mesmo tempo, não os nacionalizar.

E assim, alegou, sobretudo, que os Templários em Portugal (com sede em Tomar), na verdade, se enquadravam num regime bem distinto das outras realidades europeias, pois o poder régio, em Portugal, tinha uma influência muito significativa no controlo e na gestão das atividades da Ordem do Templo. Logo, o cenário templário português nada tinha que ver com o cenário templário ocorrido em outros lugares europeus. Mais a mais, reconheça-se que o Rei D. Dinis sabia bem que a guerra com os mouros tinha terminado em terra, mas continuava no mar. E os Templários eram especialmente úteis em qualquer tipo de combate e em qualquer tipo de teatro de operações militares.

Procurando assim evitar a transferência do património da Ordem do Templo para a Ordem de São João do Hospital, obteve o Rei D. Dinis do Papa João XXII a bula “Ad ae exquibus”, expedida em 15 de março de 1319, que aprovava a formação da Ordem de Cristo. E para ela migraram os Templários. E para as velas das nossas caravelas e das nossas naus dos Descobrimentos migrou a cruz vermelha da Ordem de Cristo. E juntamente com essa cruz, migraram a coragem e o espírito de aventura dos Templários para a conquista de novos mundos, em nome de Portugal.

X