“As Crónicas do Alfazeres” … Lembrando o Nosso Querido e Insubstituível ” Pilonismo” David Sequeira 19430333

Dagoberto-Campos-Lima

O recente falecimento do David Sequerra (14 de Janeiro de 2016), que tanta mágoa me provocou, trás-me à memória, com muita saudade, o nosso cordial, e muito amigo, relacionamento nestes últimos anos em que, com muita frequência, tivemos muitos contactos, quer por escrito, quer telefonicamente, o que era reforçado, naturalmente, pelo facto de fazermos anos no mesmo dia (21 de Junho), só que sendo eu mais velho cinco anos. Não me posso esquecer das constantes alusões que me dirigia nos seus “Apontamento” e “Notas… Rapidíssimas”, a última das quais foi no Boletim n.º 239, último em que, infelizmente, colaborou, em vida!…

Fiel ao culto das memórias da “malta” vividas no interior “desta casa tão bela e tão ridente” desde os Claustros e Ginásio da 1.ª à Parada e Oficinas da 2.ª Secção, foi um incansável prospector de situações, factos e circunstâncias que fazem parte da história deste imenso e inesgotável “Pilão”, que gostosamente e com espírito subtil, expunha, como ninguém, nas páginas do “Boletim” para gáudio de todos que avidamente o liam, como eu!…

Na última vez que o vi pessoalmente, foi em 24 de Maio de 2015, na Sala de Alunos da 1.ª Secção, no decorrer de uma cerimónia de entrega de Colares de Honra e Emblemas de Antiguidade. Não gostei do seu aspecto e tive um lúgubre e estranho pressentimento que fez com que, ainda nesse dia, quando cheguei a casa, em Vilamoura, dissesse a minha mulher que tinha ficado muito preocupado com a sua aparência!…

Partiu para sempre, tendo deixado um grande vazio, muito difícil de preencher, sobretudo como militante apaixonado da sua querida APE, e das suas causas, por quem tanto lutou com enorme afinco!…

Em sua memória, e porque tantas e tantas vezes me solicitou colaboração para o “seu Boletim” (sempre preocupado com os números record dos seus participantes!…), aqui deixo mais umas vivências, passadas nos bastidores do “Pilão”, no final da década dos anos quarenta, que ele próprio (David) baptizou como as… “Crónicas do Alfarazes” a que darei o título:
a) “O Xang”, e sua reinação, podia ter-me sido fatal!…”;
b) “A Colónia Balnear dos filhos dos Sargentos (Oeiras)”;
c) “O Velho Povo Português”;
d) “Procissão das velas”;
e) “Guarda de honra na cerimónia de Despedida do General Franco”.

1. O Pilão muito atento à saúde e desenvolvimento físico dos seus alunos, para além dos seus momentos de recreação e lazer, promovia estadias na praia nos meses de Verão.

Pessoalmente tive a sorte de frequentar a belíssima Praia do Sul (e não só) na Ericeira no Verão dos anos de 1941, 1942 e 1943. Que recordações tão gratas tenho destas extraordinárias férias na praia (!), onde nada nos faltava de conforto, bem instalados num grande casarão de r/chão e dois andares, mesmo no centro daquela emblemática turística e piscatória vila, pertíssimo da muito conhecida Praça do “jogo da bola”. Desfrutávamos de uma vida ao ar livre, com uma soberba mesa onde não faltava peixe fresquinho que o “mestre cuco” – Mestre Francisco – se esmerava em cozinhar!…, com praia obrigatória da parte da manhã e facultativa da parte da tarde (depois de uma sessão de estudo, também ela obrigatória).

Lembro-me, perfeitamente, que numa destas idas à praia da parte da tarde de um dia de Setembro de 1943, corri um grave e dramático risco, quando, sozinho, com a praia-mar, duma maré viva, pretendia sair da água, sem o conseguir, dada a enorme força do retorno das ondas, misturadas com grande quantidade de calhaus rolados que, batendo-me nas canelas das pernas, faziam com que tombasse e, em desequilíbrio, fosse, de novo, arrastado para dentro do mar, para a zona de rebentação das ondas!…

Sem êxito, repeti esta operação umas oito a dez vezes, despendendo um esforço gigantesco para vencer a força do retorno das ondas que, depois de se espraiarem no talude de areia da praia, retornava, violentamente, para a borda de água, arrastando muitos calhaus que, batendo-me nas canelas, repito, faziam com que perdesse o equilíbrio e rodasse, irresistivelmente, de novo, para dentro do mar, onde, boiando (… felizmente que já tinha aprendido a fazê-lo!…), descansava para ganhar forças para repetir, por várias vezes, a dramática operação de resistir ao tremendo efeito do retorno das ondas e tentar, desesperadamente, alcançar a salvadora areia seca da praia!…

A situação tornou-se gravíssima, pois, perante o insucesso das várias referidas tentativas, comecei a entrar em pânico(!), ficando assim, deste modo, um jovem de 15 anos de idade, prestes a morrer afogado!…

Mas, o mais irrisório de tudo isto, e, ao mesmo tempo, exasperantemente aflitivo, é que, estendido numa toalha de praia, a cerca de cinco metros da areia molhada, onde se passava este drama, em plena rebentação das ondas, a tomar, paulatinamente, banhos de sol, estava o meu colega Eurico Luiz Castelhano Sabino, 19400187, por alcunha o “Xang”, (ver fotografia de 1940, aquando da sua entrada para o “Pilão”) dada a configuração achinesada do seu rosto, que indiferentemente aos meus desesperados gritos de socorro, de braços estendidos, em súplica, não se apercebeu da realidade dos factos, pois pensava que eu estava, no meio de todo aquele espalhafato que descrevi, que estava a “reinar!…” (expressão como é sabido, utilizada pela miudagem, para dizer: brincar!…)

Efectivamente, quando ao fim, aí da décima tentativa, completamente exausto, me consegui safar (… eu diria por milagre!…), do efeito arrasador das violentas ondas, fiquei deitado na areia, de borco, e, ao fim de quinze a vinte minutos, depois de recuperar o fôlego, num repente, veio- -me uma tremenda vontade de esganar o “Xang” que, impune e tranquilamente, papo para o ar, continuava a apanhar banhos de sol, absolutamente alheio ao terrível drama que acabo de descrever!…

Quando, desabridamente, o interpelei, respondeu-me, candidamente, muito admirado:
As-cronicas-de-alfazeres– “Eh pá, pensava que estavas a “reinar”!…

Perante isto, de súbito, esvaiu-se-me a “onda assassina”, e, caindo em mim, pensei bem no interior do meu íntimo: (continuação) Evocações
– “Puxa! Como é que conseguiste safar-te desta?!…”

Entretanto, 73 anos são passados desde que esta odisseia foi por mim vivida na Praia do Sul da fabulosa Vila da Ericeira nas imediações do bem localizado e estratégico mirante, denominado “Sala de Visitas” (… mais a Sul, junto à foz do rio Lizandro, havia a “Sala de Jantar”!…). Pela intensidade com que a narrei, sente-se que esta é uma imorredoira aventura, de que tantas vezes, me tenho lembrado ao longo desta minha já longa e atribulada vida.

Quanto ao “Xang”, perdeu-se na voracidade da vida em caminhos e vivências para mim desconhecidas, só sabendo que saiu do “Pilão” pouco depois deste inesquecível episódio, por falta de aproveitamento escolar!…Como se dizia no meu tempo, nos anos quarenta, na gíria interna do “Pilão”:
“Foi para o coco no Galamas!…”

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