“As crónicas do Alfarazes”…

Dagoberto-Campos-Lima

Dando continuidade às “Crónicas do Alfarazes” seguimos hoje com quatro títulos, porquanto uma só conclusão encerram, como se verá:

a) “A Colónia Balnear dos filhos dos Sargentos (Oeiras)”;
b) “O Velho Povo Português”;
c) “Procissão das velas”;
d) “Guarda de honra na cerimónia de Despedida do General Franco”.

1. Seis anos mais tarde, em 1949, por amável cedência de sua Ex.ª o Governador Militar de Lisboa (General Pereira Coutinho), no dia 08 de Setembro de 1949 seguiram para a Colónia Balnear dos filhos dos Sargentos da Guarnição de Oeiras, de acordo com a O.S. (Ordem de Serviço) n.º 206 os seguintes alunos nos: 6, 13, 18, 19, 27, 28, 29, 46, 49, 53, 56, 59, 61, 62, 75, 78 (do meu curso, o Orlando, um dos obreiros dos sete a zero do Colégio Militar no Ano Lectivo de 1947-1948 no Estádio Nacional do Jamor), 85, 87, 91, 105, 117, 134, 156, 169, 191, 211, 212, 220, 238, 245, 246 (eu próprio Dagoberto Campos Lima), 248, 259, 344, 353 (do meu curso, o Mário, outro dos heróis do “ 7 a zero”) e o 355.
A antiga Colónia Balnear dos Filhos dos Sargentos, em 1949 situava-se em Oeiras, nas imediações do Forte do Areeiro/Forte de Santo Amaro/ou Forte de Nossa Senhora das Mercês de Catalazete, junto do Palacete que era a casa de Campo do Governador Militar de Lisboa, espaço este onde, atualmente, se desenvolve o Centro de Apoio Social de Oeiras (CASO).

Muito bem localizada, relativamente à bonita e amena praia de Santo Amaro de Oeiras, conquistou, de imediato, a nossa simpatia, onde as boas instalações garantiram um notável conforto que a “malta”, radiantemente, aproveitava retirando a maior satisfação e prazer!

Que maravilhosas férias aquelas, das quais, ainda hoje guardo as melhores recordações pelas várias aventuras que ali vivemos!…

Logo de início o Diretor da Colónia, o Tenente-Coronel Chaby, 2.º Comandante do Regimento de Cavalaria 7, “doente furioso” de teatro, talvez por afinidade com o nome do grande actor Chaby Pinheiro, pois não eram da mesma família (!…), como aluno mais velho daquela “malta pilónica “que ali se encontrava, e, conhecedor da minha veia teatral que me acompanhava das Récitas do “Pilão” do tempo do “Pai Nini” (Brigadeiro Tamagnini Barbosa) e do “Xôr” (Major Eloy Valverde), veio ter comigo para pedir a minha colaboração e da restante “malta” para participarmos numa Peça teatral que lhe tinha sido solicitada pelo Senhor Governador Militar.

Encantado com o convite, visto gostar muito de teatro, respondi-lhe:

– “Meu Coronel, terei muito gosto em participar nessa peça teatral, mas, se possível, num papel sério (!), pois no Instituto dos Pupilos do Exército, duma maneira geral, só tenho desempenhado papéis cómicos!…”

Ficou um momento pensativo, para, logo depois, com muito entusiasmo, me dizer:

– “Acabas de me dar uma boa ideia que vou aproveitar para incluir na peça que estou a escrever. Conto, então, contigo!…”

Escreveu-me, de seguida, um belíssimo texto, muito patriótico (em que se esmerou a ensaiar-me!…), a que deu o título de: “Velho Povo Português!”, que eu encarnava num velhote, rijo, apoiado num cajado que, vibrantemente, era um guardião da História de Portugal muito atento à juventude que devia, em rasgos de glória e patriotismo escrever novos feitos que a História haveria de registar e guardar na Memória!…

O enredo da Peça passava-se numa Sala de Aula do Ensino Primário, onde a Professora respectiva ensinava os seus alunos. Por um motivo qualquer esta teve que se ausentar da Sala, o que provocou um violento terramoto de indisciplina da garotada!…

Ao regressar a Senhora Professora, antes de entrar na Sala, através da janela, pôde analisar as várias asneiras (pantominices) em que os jovens alunos se engalfinharam, uns com os outros, e, em vez de os castigar, resolveu dar uma lição de História por cada acto irreflectido dos alunos, aparecendo-nos, assim, referências aos casos históricos de “Martim Moniz”, “Egas Moniz”, “Chave do Alcaide do Castelo de Faria”, “Padrão dos Descobrimentos”, etc.

À medida que estes episódios da nossa História iam sendo invocados a “História de Portugal”, personificada por uma “teen-age” de longos cabelos compridos, vestida de branco, ia escrevendo num grande livro que empunhava, estas páginas, até que, quando prestes a chegar ao fim se dispunha a encerrar o Livro, ao que o “Velho Povo Português”, todo empertigado, pleno de entusiasmo e fulgor, dirigindo-se-lhe a impediu de fechar o Livro, pois (apontando para a classe dos alunos) disse:

– ”Estes miúdos, unidos em torno da nossa bandeira, numa fé forte e verdadeira, hão-de escrever novos feitos de que muito nos orgulharemos!…”.

E, então, o “Velho Povo Português”, numa visão apoteótica, plena de patriotismo, numa “mise enscêne” extraordinariamente concebida, começa a declamar, empolgadamente, esses novos feitos, com a “Portuguesa” como música de fundo, aumentando progressivamente de volume, os clarins do Regimentos de Cavalaria 7 a tocarem à carga e os gritos da “malta dos pilões”, nos bastidores, bradando bem alto:

– “Portugal!, Portugal, Portugal!…” (vezes sem conta!)
Obteve-se uma estrondosa e avassaladora reação da assistência (onde minha mãe se encontrava embevecida)
e oito a dez generais, incluindo o Governador Militar de Lisboa, vibraram até às lágrimas, numa incontida onda de patriotismo!…

No fim, “como estrela da companhia” fui efusivamente e calorosamente aplaudido, de pé, pela entusiasmada assembleia, e, pouco depois, já na plateia, vibrantemente felicitado pelos ilustres espectadores, nunca pensando na minha vida receber tão fortes abraços de tantos generais!…

2. Alguns dias depois deste clamoroso êxito, o Coronel Chaby, chamou-me para me sugerir que solicitasse uma
audiência ao General Pereira Coutinho (que era extraordinariamente devoto a Nossa Senhora de Fátima) para pedir autorização para que a “malta do Pilão” organizasse uma procissão das velas na noite de 12 para 13 de Setembro de 1949, sendo, assim, mais uma vez, ensaiado a primor pelo Coronel Chaby, pelo que o meu pedido foi recebido pelo Senhor Governador Militar com um inusitado interesse, que excedeu tudo quanto esperava que sucedesse!. Lembro-me bem que a surpresa do pedido o deixou estupe-facto e a tremer de emoção, comovido até às lágrimas!…

Foi com imenso carinho que o General Pereira Coutinho se me dirigiu para, calorosamente, me dar o seu consentimento para que a Procissão das Velas em honra de Nossa Senhora de Fátima fosse realizada, facto que, repetiu-me, o enchia de muita alegria!…

Por tudo quanto acima foi referido, relativamente ao comportamento da “malta pilónica” na Colónia de Férias, não foi de admirar que na O.S. (Ordem de Serviço) n.º 230, de 07 de Outubro de 1949, o Diretor do “Pilão” (Coronel Quintino Rogado) mandasse publicar o seguinte teor do Ofício da Direção da Colónia de Férias dos filhos dos Sargentos da Guarnição do Governo Militar de Lisboa.

“Ao terminar o terceiro e último turno desta Colónia de Férias na qual tomaram parte 37 alunos desse Instituto (mencionados em 2), é-nos muito grato informar V. Exª que, pela sua compostura, pelo exemplo de sã camaradagem sempre patenteado, pela pronta atenção a todas as indicações, em suma, pelo correctíssimo comportamento, esse grupo de alunos soube honrar-se honrando o modelar Estabelecimento que V.Exª superiormente dirige”.

3. Tendo por base o que foi descrito em anteriores “Crónicas do Alfarazes”, (publicadas em anteriores números do Boletin da APE), no início do Ano Lectivo 1949-1950 fui nomeado graduado (comandante do 1.º Pelotão da 3.ª Companhia), terminando, assim, uma determinação antiga do “Pilão” de que: “Aluno que tivesse sido submetido a Separação (na gíria “Prisa/Gaiola”) que foi o meu caso no Ano Lectivo 1944-1945 (ainda quando garoto, andava no 4.º Ano Complementar de Indústria), não poderia ser graduado!…

Assim, cerca de um mês depois de ter recebido o Louvor mencionado em 3, no dia 27 de Outubro de 1949 o Batalhão Escolar deslocou-se ao Aeroporto de Lisboa, onde foi prestar Guarda de Honra na Cerimónia de despedida do General Franco, que tinha feito uma visita oficial a Portugal de 22 a 27 de Outubro, em que foi recebido com excepcional pompa e circunstância!…

Nesta cerimónia encontrava-me galhardamente, de farda de gala, à frente do meu pelotão, empunhando a espada (ver fotografia), ocorreu um pequeno episódio que muito me emocionou e que, com saudade, guardei para o resto da vida!…

Já depois de feita a guarda de honra e do avião do General Franco ter levantado voo com destino a Madrid, quando a grande quantidade de Entidades Oficiais, que vieram participar na cerimónia de despedida, se retirava do recinto do Aeroporto, entre os quais o Governador Militar de Lisboa, a quem o Batalhão Escolar prestava honras militares, a sua limusine passou muito perto do local onde me encontrava, à frente do meu pelotão, em rigorosa formatura militar.

Como o nosso contacto na Colónia de Férias tinha sido há menos de um mês, o Sr. General Governador Militar,
reconheceu-me de imediato, certamente em consequência dos acontecimentos relatados em 3, pelo que me fez um espontâneo, expansivo e caloroso cumprimento, acenando-me e sorrindo de dentro da sua viatura!…

É claro que me mantive firme e imperturbável, na posição de “apresentar armas”, pelo que, naturalmente, não lhe pude retribuir os afectuosos gestos de saudação que o General Pereira Coutinho me prodigalizou!…

Vilamoura, 12 de Fevereiro de 2017

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