A MOEDA DE CÉSAR VITÉLIO

Anos antes do movimento conhecido como “Primavera Árabe”, fui à Tunísia. E durante duas semanas fiz as habituais visitas turísticas a Tunes, Cartago, ao mausoléu do líder da independência Habib Bourguiba, às praias da ilha de Djerba, a Douz a “porta do deserto” onde andei alguns metros de camelo…e à pequena vila El Jem, entre Sousse e Sfax, conhecida no império romano por El Thysdrus. A grande atração é o seu Coliseu, o maior monumento romano em África construído em glória do imperador Gordiano (supõe-se por falta de inscrições) entre 230 e 238 a.c.. A visita causa impacto, nunca pensei encontrar um monumento deste porte neste buraco, pensei à saída do Coliseu quando fui abordado por um vendedor ambulante a quem comprei, depois de duras negociações, uma moeda romana “autêntica” por poucos euros. Essa pequena moeda foi uma apreciada recordação dessa viagem. Apesar disso, perdi-lhe o rasto e só a reencontrei recentemente, por acaso, no fundo de uma gaveta. Mas a dúvida sobre a sua autenticidade instalou-se em mim.
Dias depois, encontrei o senhor F. e falei-lhe no assunto. Ele disse-me ser vizinho de um conhecedor da história do império romano, dos seus hábitos, das suas roupas, das suas moedas e acrescentou: “ele é quase como se tivesse vivido na época de Júlio César, só fala nisso”. E passou por minha casa para buscar a moeda e entregá-la “para efeitos de estudo e autenticação”. Passou-se um mês, telefonei ao senhor F. e combinámos um encontro com o seu vizinho para falarmos sobre a moeda.
E assim foi. Três imperiais, o vizinho do senhor F. é um homem pomposo, tirou com cuidado do bolso um pequeno saco de plástico lacrado onde vislumbrei a minha moeda e perguntou: “ O senhor é colecionador de moedas antigas?”. “Não, não, só tenha esta”, respondi. Ele falou longamente. Disse que a numismática tem por objetivo o estudo de moedas e medalhas, que as moedas antigas se tornaram documentos históricos, fonte de dados para pesquisas sobre o povo da época, o governo que as cunhou, a forma como comercializavam, a situação da economia e o grau de sofisticação através da análise do método de cunhagem. Acrescentou que as moedas metálicas surgiram por volta do ano dois mil antes de Cristo, mas só no século VII a.c. se iniciou a cunhagem, a partir do dracma de Atenas que difundiu a moeda metálica por todo o mundo. “Já estive com um dracma antigo nas minhas mãos”, disse ele e olhou com calma para as suas mãos, enquanto o senhor F. dava sinais de emoção (ou talvez fingisse essa emoção, pensei).
Pedi mais três imperiais, enquanto ele disse que o dia um de Dezembro é o dia do numismata e que santo Elígio é o padroeiro dos colecionadores. “Nunca ouvi falar nesse santo”, disse o senhor F. enquanto fazia um cigarro com tabaco de enrolar. E acrescentou dirigindo-se ao vizinho: “Disseste-me que este meu amigo cometeu um erro crasso ao comprar a moeda na rua a um ambulante.” O seu vizinho sorriu: “Crasso, (Pausa) não sei se sabem esse dito popular inspira-se no general romano Casio, ou Cassius em latim, que foi derrotado pelos partas na batalha de Carras na Síria ao cometer um erro militar estratégico. Um erro crasso.” “O senhor parece que viveu na antiga Roma”, disse eu. O vizinho do senhor F. fez um riso superior e disse como se não tivesse mais tempo a perder: “Adiante”.
E finalmente tirou a minha moeda do pequeno saco de plástico: “Esta moeda é inspirada num denário do imperador Vitélio, que pode ter sido cunhada no verão ou outono do ano 69, mas não é uma emissão oficial de Roma”.
Eu e o senhor F. abrimos a boca espantados com a precisão do nosso interlocutor, e ele continuou: “As imitações de moedas romanas eram comuns na antiguidade e chegaram a ser autorizadas pelos imperadores em áreas mais remotas do império, mas Vitélio foi um imperador especial.”
“Especial? Especial como? O meu amigo teve um azar do caraças com a moeda” – disse o senhor F..
“Vitélio só reinou durante uns meses no ano de 69 e as moedas cunhadas no seu período são muito procuradas, desde o século XVI têm sido imitadas e falsificadas por toda a parte e é praticamente impossível saber-se a data da falsificação.”
“Vitélio só reinou durante uns meses? – perguntei.
“Sim, Otão o seu antecessor suicidou-se depois da vitória de Vitélio apoiado pelas legiões da Germânia. Vitélio comia muito, descurou o governo e a sua segurança pessoal e foi derrotado pelas tropas do que viria a ser o décimo César. (Pausa) O seu corpo foi arrastado pelas ruas de Roma e atirado para as águas do rio Tibre.” “Coitado”, disse eu e apalpei a minha moeda. “Então, a sua moeda vale muito pouco, quanto pagou por ela?”, perguntou-me o vizinho do senhor F.. “Já não me recordo, faz muitos anos que a comprei”, respondi.
O senhor F. riu-se e disse um ditado popular brasileiro: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco, o que significa que a tua desgraça (e olhou-me nos olhos) é tão grande que a que outros porventura sofram é refrescante…” “Não é caso para tanto”, interrompi. Após uma longa pausa, o vizinho do senhor F. perguntou-me:
“O senhor quer vender-me a sua moeda.”
“Agradeço muito a sua lição, mas não, não quero vendê-la” – coloquei-a no saco de plástico e, à cautela, guardei-o bem guardado.
Levantámo-nos e despedimo-nos. Na rua, o senhor F. Acendeu o cigarro que preparara, apalpei o saco com a moeda no meu bolso e pensei em César Vitélio com a sua cara gorda de perfil na minha moeda a ser arrastado pela populaça a gritar impropérios nas ruas de Roma, ele a pedir socorro e a ser atirado para as águas do Tibre com o povo a apupá-lo e talvez a rir-se do seu desespero. “Pimenta nos olhos dos outros é refresco”, sussurrei, sorri e apalpei outra vez a moeda no meu bolso. “Você está a rir-se de quê?”, “De nada”, respondi ao senhor F.. Quando terá a moeda sido falsificada? No século I? No século XVI ou XVII? Uma semana antes da minha chegada à Tunísia? E lembrei-me dos bons momentos que passei na visita ao Coliseu de El Jem. Valeu, valeu a pena ter comprado esta moeda, pensei.

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