A Censura e os Censores

Jacinto-Rego-de-Almeida

As imagens de livros a serem queimados em praças aterrorizam os homens. Histórias e histórias que levaram leitores a viajar pelo mundo, pela História, que os emocionaram, alegraram, alguns mudaram até as suas vidas após leituras, enfim… livros queimados em labaredas públicas sob a vigilância arrogante de militares armados.

Censores escolheram esses livros destinados à fogueira enquanto alguns resistentes esconderam exemplares em estantes secretas, lugares escondidos do poder público como no filme “Fahrenheit 451”, de François Truffaut. Quem foram esses censores?

O historiador norte-americano Robert Darnton – especialista em história da França no século XVIII, antigo diretor da Biblioteca da Universidade da Harvard e galardoado em 1995 com o prémio National Book Critics Circley – para escrever o seu livro “Censors at work” (2014), pesquisou durante mais de duas décadas documentos arquivados na Bastilha (Paris), no Serviço Civil Indiano responsável pela administração colonial inglesa e, quatro meses antes da reunificação da Alemanha (em 1990), visitou o setor de ficção da Administração Central da Publicação e Comércio de Livros da República Democrática da Alemanha(RDA). Ao perguntar ao censor Hans-Jurgen Wesener como ele via o seu trabalho, obteve como resposta: “Planeamento”. Enfim, como outros setores da vida na RDA, a literatura devia ser planeada.

O livro de Robert Darnton aborda a censura e o pensamento dos censores na França dos Bourbon no século XVIII, na Índia então colónia britânica no século XIX e na Alemanha Oriental no século XX. Os ofícios de censores (académicos, cientistas, intelectuais e também escritores) encontrados na Bastilha revelam orgulho no trabalho que realizavam, um deles escreve, “defendo a honra da literatura francesa”, e o seu entendimento de que melhoravam os livros e que se tratava de uma censura positiva. Imprimir livros na França dos Bourbon era privilégio concedido pelo rei e para tal tornava-se necessário obter o parecer positivo de um censor. Os autores em geral conheciam os censores, discutiam passagens das obras e o seu nome e parecer era publicado no início do livro. Críticas ao rei ou à igreja, publicadas, traziam graves dissabores também ao censor. A grande maioria dos livros identificados com a literatura francesa do Iluminismo, para fugirem às leis reais, foram impressos fora de França, circulavam clandestinamente no país e a polícia de livros do regime enviou para a Bastilha escritores e pessoas do sofisticado subterrâneo literário que fazia circular as obras. A natureza deste sistema, diz o historiador norte-americano, é mais complexa do que a ideia simplista de que a censura é a história da repressão contra a liberdade.

Na Alemanha Oriental foi criada uma grande burocracia para “planear” a literatura nacional. Entre o secretário-geral do Comité Central do Partido Comunista e os censores com quem Robert Darnton conversou, havia quatro níveis hierárquicos intermediários que mobilizavam centenas de funcionários. Apesar disso, a censura exercida pelos próprios autores, editores (editar e censurar eram partes do mesmo trabalho) e críticos e resenhistas, entre eles altos quadros do partido, tornou-se o mais eficiente método de censura a livros no país. São conhecidas as formas de vigilância política a Bertolt Brecht e Heiner Muller, teatrólogos e intelectuais de referência mundial da Alemanha Oriental.

Quando vemos em imagens de arquivo históricos os livros a serem queimados em praças na Alemanha nazista ou no Chile de Pinochet, não conhecemos as personalidades e o pensamento dos censores, agentes desse processo extremo e público de intimidação da sociedade em relação à literatura.

Robert Darnton afirmou em entrevista que é um ardoroso defensor das liberdades civis, um crítico severo das formas de controlo implantadas nos E.U.A. após os atentados de 11 de Setembro de 2001 e ressalta que “a história não ensina nada”, mas as experiências do passado podem servir de alerta para o presente. Acrescenta: “Na era da internet, o governo tem uma capacidade enorme de vigiar as nossas menores ações. O perigo da censura é muito maior agora.”

Ocorre-me o regime do Estado Novo em Portugal em que muitos perigos eram antiquados e simplórios comparados com os dos dias atuais. A censura aos livros foi apenas objeto de artigos de jornal e de programas de televisão depois da Revolução de 25 de Abril, não conhecemos os censores dos cerca de 900 livros censurados, proibidos ou apreendidos de Almeida Faria, Urbano Tavares Rodrigues, Miguel Torga, Alves Redol, Natália Correia, Herberto Hélder, Aquilino Ribeiro, Vergílio Ferreira… Jorge Amado, Jean-Paul Sartre e tantos outros. Mas lembro um resistente, o senhor Barata, dono da Livraria Barata na Avenida de Roma, um lugar de referência na Lisboa dos anos 60 e até aos nossos dias. Lembro-me do único dia em que lhe encomendei dois ou três livros proibidos, depois de me apresentar por intermédio de um amigo comum. “Vou ver se consigo arranjar. Passe na semana que vem”, segredou-me com a cara fechada e o ar triste com que sempre o conheci. E alguns dias depois lá estavam os livros dentro de um envelope pardo que foi buscar numa sala ao fundo da loja e me entregou com cautela. Estive várias vezes com ele depois da Revolução de 25 de Abril, as suas preocupações eram outras, a sustentabilidade da loja num mundo livreiro que anunciava mudanças profundas. Morreu em condições trágicas anos depois da restauração da liberdade em Portugal. Paz à sua alma.

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