Pilão, a Minha Casa

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Os anos de 1973 e de 1974 foram uma verdadeira “overdose”.

Foram anos de transição, onde tudo aconteceu, e foram o epílogo dos anos de ansiedade, cinzentos e tristes, do período da Guerra Colonial.

Em 1973, quando nada o fazia prever, o meu pai com quarenta e quatro anos, e já com duas comissões de quatro anos cada em Angola e em Moçambique, é mobilizado para a Guiné.

Esta nova comissão veio a revelar-se curta e carregada de sinistras coincidências.

Começou com uma partida em Fevereiro, cruel presente de aniversário para a minha mãe, como se não bastasse o peso que tinham todas as partidas para o Ultramar.

Voltava assim a espera ansiosa dos aerogramas amarelos, onde íamos bebendo as descrições possíveis do que era a vida diária do Cabo Manobra nº 2404 da Armada, patrão da LDM113, num rio longínquo chamado Cacheu que percorria com os seus camaradas Fuzileiros.

Em Agosto, uma granada põe fim à comissão.

Num dia do mesmo mês, à hora de almoço, bateu-nos à porta um camarada seu que quase não conseguiu articular uma palavra para nos dizer o que todos adivinhávamos. Iniciou-se então um período ainda mais surreal. O carteiro continuou a entregar-nos os aerogramas. Quando finalmente deixaram de chegar, recebemos o espólio, pilhado e ainda carregado de sinais de uso recente.

No dia que era suposto chegar de férias, as segundas em vinte e quatro anos de Marinha, chegou um caixão fechado e selado que, coberto pela bandeira da República na capela de S. Roque, exalava um cheiro de morte que ainda hoje sinto.

Finalmente, num cinzento dia de Outubro, dia do seu aniversário, foi a enterrar numa cerimónia oficialmente sem padre, devido ao facto dos meus pais serem apenas civilmente casados, descendo à terra pelas mãos dos seus camaradas.

Ainda hoje, passados mais de quarenta e três anos, fico sem fôlego quando recordo a vertigem destes pouco mais de sete meses, vividos completamente a frio e sem qualquer tipo de apoio psicológico ou material.

Em nossa casa passou apenas a sentir-se um enorme vazio, preenchido com a angústia da possibilidade do meu irmão mais velho ter também como destino a guerra, a falta de dinheiro para pagar contas e a consciência da necessidade de se tomarem decisões que sabíamos inevitáveis.

Entre essas decisões estava a possibilidade de ir para os Pupilos do Exército, que de futuro designarei apenas por Pilão, a minha Casa.

A minha entrada já não ocorreu em 1973. Sendo possível, ocorreria tardiamente, pelo que só aconteceu a 07 de Outubro de 1974.

Este ano de espera foi tudo menos monótono e tudo à nossa volta nos dizia que aqueles tempos de mudança iriam abalar tanto o país quanto a nossa família.

Já em 1974, Spínola, regressado da Guiné, publica em Fevereiro “Portugal e o Futuro”. Em Março ocorre o que ficou conhecido como a Intentona das Caldas. Pouco mais de um mês depois aconteceu o 25 de Abril.

É, assim, em pleno PREC que entro no Pilão, com o nº 383, aluno do 1º Grupo por ser órfão de guerra, qualidade que partilhava com muitos dos meus camaradas. Os que não eram órfãos tinham também as suas próprias circunstâncias, éramos todos da geração da Guerra e o seu espelho, como uma Arca de Noé: brancos, pretos, mulatos, mestiços, indianos, chineses, todos diferentes, tornados iguais pela farda cinzenta de cotim e fazenda.

No exterior acontecia o 28 de Setembro, da Maioria Silenciosa. Em 1975 dá-se o 11 de Março, Spínola deixa de ser o herói da revolução e parte para Espanha. O COPCON de Otelo reina por todo o lado, até que em Novembro Eanes põe alguma ordem no país. No interior, o Pilão mudava também, adaptava-se, como tem feito desde a fundação em 1911. E o PREC vivia-se também, algumas vezes, dentro de muros.

Apesar dos meus onze anos tentava, às vezes com dificuldade, entender e interpretar tudo o que vinha acontecendo a um ritmo alucinante, quer fora quer dentro.

De início, a perda recente do meu pai e as saudades de casa e da minha mãe, colocavam permanentemente em cima da mesa a possibilidade de desistir. E as incertezas eram muitas. Logo nesse ano lectivo, o primeiro, corre a notícia de que o Governo pretende fechar o Pilão.

Mas o Pilão nunca fechou, e mesmo no PREC, as rotinas impuseram-se e aquele longínquo ano lectivo de 1974/75 vai decorrendo com a normalidade possível. O meu número passou a ser uma segunda identidade, uma nova pele que ainda hoje visto. E a alcunha de “Baleia”, cuja origem já nem sei precisar, uma referência tão preciosa que ainda hoje permite identificar-me.

Naquela época não havia qualquer tipo de recepção organizada destinada à integração dos novos pequenos pilões. Uma vez pilão, ia dando um passo de cada vez, tentando sobreviver numa casa austera, por vezes difícil, para onde fora enviado em resultado da morte do meu pai, mas que me iria conquistar e ensinar a amá-la.

Pessoalmente, o processo de integração e de interiorização da minha nova qualidade de pilão, não foi um processo gradual. Aconteceu num dia daquele ano de 1974, cansativo mas saboroso, vivido sem praxes e sem qualquer uma das bizarrias do capitão “Hoss”, o Comandante de Companhia, em que as refeições me pareceram pela primeira vez particularmente saborosas, e em que mergulhar nos lençóis de pano-cru da minha cama, bem esticados pelos nós feitos nos quatro cantos do colchão de espuma, foi um intenso momento de bem-estar, de silêncio e de paz.

É a primeira vez que falo deste momento. Um momento que, para um miúdo de onze anos daquele tempo, foi sentido como uma revelação, uma epifania, uma voz que me dizia que não mais desistiria vencido pelas saudades, que nunca mais sairia daquela casa, a minha Casa. E nunca mais saí, ainda hoje uma grande parte de mim continua lá, mesmo ausente.

E, num ápice, passaram quase dez anos.

De repente, num dia de Julho de 1984, dou por mim no gabinete do Brigadeiro Coelho, o meu último Director e um pilão como eu, para me despedir. Antes de sair, por já estar à civil, não houve a habitual continência, apenas um comovido abraço. Abraço que haveríamos de repetir, com a mesma emoção, vinte e cinco anos mais tarde.

Começava então um tempo novo. Um tempo de satisfação, por ter um curso e uma profissão, e de esperança, de quem tem consciência que há ainda toda uma vida para viver. Mas era ainda um tempo em que não tinha a consciência de quanto do Pilão transportava em mim.

Quis o destino que, após um período em que continuei a viver e a trabalhar na minha querida cidade de Lisboa, fosse parar aos Açores, onde actualmente ainda vivo e trabalho.

Decorria o ano de 1987, era então um jovem Engenheiro Técnico, empenhado e completamente absorvido pela reconstrução da rede eléctrica de Angra do Heroísmo, destruída pelo sismo de 1 de Janeiro de 1980.

Foi no decorrer deste trabalho que, sendo convocado à administração da empresa para a qual trabalhava à época, me confrontam com este pedido completamente inesperado:

– Precisamos de contratar mais uma pessoa; arranje-nos alguém que tenha estudado na mesma escola onde fez o seu curso.

Esta foi a primeira vez que percebi que uma vez pilão, pilão para sempre. Onde fosse e no que fizesse, não seria apenas eu a ser avaliado. O Pilão, a minha Casa também. É uma enorme responsabilidade, mas também uma enorme satisfação. No caso em concreto possibilitou uma oportunidade de trabalho a um camarada meu, a um irmão, oportunidade que por mérito próprio soube aproveitar e manter, e por isso a mim nada deve e não o identifico. Ambos devemos tudo ao Pilão.

Ao longo de mais de trinta anos de vida profissional, tive oportunidade de leccionar regularmente, embora nunca o tenha feito como actividade principal. E fi-lo em diversos níveis do ensino profissional, do secundário e até universitário.

Apesar da desvalorização social e remuneratória que afecta hoje quem faz do ensino profissão, ensinar é uma actividade nobre. Além disso proporciona-nos o prazer do estímulo intelectual de aprender e de lidar com jovens, alguns brilhantes.

Ainda nos anos da década de 80, leccionei Matemática a turmas de ensino secundário nocturno. Nestas turmas, cujo aproveitamento era muito baixo, os alunos a que ensinava ou eram trabalhadores que tentavam completar ciclos que tinham interrompido, ou jovens que já tinham ultrapassado a idade que lhes permitia frequentar o ensino regular diurno.boletiom_243_1

Anos após esta experiência, numa noite em que tomava uma cerveja num bar de amigos, sou abordado por um jovem que tinha sido meu aluno numa destas turmas. Depois de me cumprimentar, diz-me:

– O professor, se calhar, não faz ideia como foi importante na minha vida; não tivesse feito o que fez naquele 1º período, eu não tinha tirado o meu curso; queria agradecer-lhe.

Já não me lembrava do que tinha feito naquele 1º período, mas aquele agradecimento tão sincero e saber que tinha influenciado positivamente as decisões que aquele jovem tomou, foram a melhor de todas as compensações que alguma vez poderia esperar como professor.

Durante a nossa conversa, recordou-me que o que tinha feito tinha sido montar um esquema muito simples para os comprometer com um objectivo.

Estávamos no fim do 1º período e alguns dos alunos não tinham o dez mínimo. Eu sabia que, para muitos deles, isso seria o primeiro passo para desistirem e tinha consciência que, em alguns casos, isso seria um desperdício de capacidades, como era o caso dele próprio.

Então, propus-lhes um acordo: eu “emprestava”-lhes os valores necessários para terem o dez mínimo, e nos períodos seguintes eles teriam que devolvê-los, sendo descontados nas médias finais de cada período.

Aquele jovem foi um dos que levou o acordo a sério e cumpriu a sua parte. Graças a isso não desistiu e concluiu o ensino secundário, permitindo-lhe entrar no seu curso universitário, que também concluiu. Hoje é um competente director hoteleiro, e um amigo.

Expresso também gratidão a todos os bons mestres de que guardo memória, dos quais refiro apenas o Dr. Boaventura de Sousa Santos, o nosso “Arranca”. Agradeço-lhe o sentido de justiça, de fé nos Homens e de auto-estima que nos soube transmitir. Sem isso este episódio não seria possível.

Mais de quarenta anos depois de ter entrado pela primeira vez a Porta de Armas, mais de trinta em que por ela saí pela última vez, e apesar de uma ausência de vinte e cinco anos ditada pelas circunstâncias da vida, ser pilão até ao último dos meus dias é das poucas certezas que tenho.

Além do carácter ditado por essa qualidade, há hábitos que, quando reparamos neles ou quando deles nos chamam à atenção, percebemos existirem porque somos pilões. Eu tenho o mesmo barbeiro há quase trinta anos e pontualmente a cada mês passa-me o pente dois no cabelo. E assim será enquanto tiver cabelo. Não há prazer que se assemelhe ao de passar a mão na cabeça depois de uma boa carecada.

Hoje, volto à minha Casa cada vez mais vezes e cada regresso, onde as conversas se retomam como se tivessem sido interrompidas no dia anterior, é um regresso cada vez mais longo, cada vez mais apetecido…

 

Rogério Paulo Pereira | nº19740383

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